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Universidade apresenta medidas contra as cheias

Vinte anos depois de começar a estudar o fenómeno das cheias, o Departamento de Ambiente e Ordenamento da Universidade de Aveiro apresenta algumas estratégias fundamentais para o combater, boticia o ua-online

“É urgente a criação de regulamentos e condicionantes ao uso do solo na bacia hidrográfica, em geral, e em particular na área urbana de forma a minimizar os impactos negativos”, segundo as conclusões a que o estudo chegou.

Segundo a Professora Celeste Coelho, investigadora e docente no Departamento de Ambiente e Ordenamento da UA, esta situação só se resolve com uma gestão integrada dos recursos hídricos. «Em termos da gestão da água há duas coisas a ressalvar. Por um lado, as alterações climáticas, e por outro, as alterações no uso do solo. A gestão da água tem que ser uma gestão integrada. Deve integrar o ordenamento do território com a gestão dos recursos hídricos, envolvendo todas as entidades ligadas à Água e articulando os vários instrumentos e as várias medidas de política».

«Durante as nossas investigações, analisámos os instrumentos de gestão dos recursos hídricos, nomeadamente o plano nacional da água, os planos de bacia hidrográfica e os planos directores municipais, para avaliar se havia alguma articulação entre os planos da bacia hidrográfica e o ordenamento do território. A conclusão a que chegámos foi a de que, embora a legislação vigente já o recomende, na prática não há articulação de espécie nenhuma. Isso é grave. Qualquer medida que venha a ser tomada para a resolução do problema das cheias pressupõe obrigatoriamente uma articulação entre as entidades competentes», ressalvou a investigadora.

Quase 20 anos de estudos e vários projectos de investigação que analisaram os efeitos da mudança do clima e do uso do solo sobre a disponibilidade da água, em várias áreas de Portugal, mais concretamente Mação e a Serra do Caramulo, da Espanha, de Marrocos e da Tunísia permitem já ao Departamento de Ambiente e Ordenamento da UA apresentar um conjunto de medidas essenciais para a prevenção das cheias.

Neste sentido, o Departamento de Ambiente e Ordenamento iniciou um novo projecto, o INUNDA – Actions-Pilote de Prevention des Risques d’Inondation dans les Zones Fortement Urbanisées , no âmbito do programa INTERREG-3C, com o intuito de propor um conjunto de regulamentos e condicionantes ao uso do solo nas áreas urbanas, inundáveis, de forma a minimizar os seus impactos negativos.

MEDchange e CLIMED foram os projectos de investigação mais recentes levados a cabo pelo Departamento de Ambiente e Ordenamento na área das cheias. O primeiro relacionou-as com as alterações do uso do solo e o segundo debruçou-se sobre as mudanças do clima. Financiados pela Comissão Europeia, ambos os projectos envolveram parceiros das zonas mais secas do Mediterrâneo, como é o caso da Espanha, Tunísia e de Marrocos.

A frequência, a localização e a intensidade das cheias variam em função das diferenças sazonais e regionais da precipitação e de outras condições atmosféricas, bem como de alterações climáticas a longo prazo. No entanto, a acção humana também desempenha um papel importante. Os incêndios, a desflorestação das regiões serranas e as técnicas utilizadas na preparação dos terrenos para as novas plantações, fazem desaparecer a vegetação, tornam o solo árido, repelindo e evitando que a água se infiltre, acelerando assim o escorrimento superficial. O resultado é o aumento da probabilidade de ocorrência de uma cheia.

Em Portugal, para além de Mação e Portel, foi estudo de caso a Serra do Caramulo, mais concretamente Águeda, uma das cidades portuguesas mais afectadas pelas cheias. Os resultados vieram confirmar a importância das alterações climáticas e do uso do solo para colmatar o problema e auxiliar na definição de algumas estratégias e procedimentos a adoptar num futuro próximo.

«Desde 1986, após o grande incêndio da Serra do Caramulo, temos mantido quase em contínuo o registo de dados meteorológicos, hidrológicos e de perdas de solo em bacias hidrográficas experimentais. Verificamos que quando há as chuvadas fortes e concentradas, imediatamente após a ocorrência de incêndios, há uma subida muito rápida da altura da água nos ribeiros da Serra e nos Rios Águeda e Alfusqueiro. Não é por acaso que para jusante o perigo de cheias em Águeda aumenta de uma forma exponencial. O mesmo acontece a seguir aqueles anos muito secos, como este, em que os solos repelem a água e a própria fauna aquática e terrestre, primordial para a recuperação dos ecossistemas do solo, desaparece.

Todos estes factores conjugados fazem diminuir a percentagem de infiltração da água das chuvas no solo e favorecem o escorrimento superficial».

Este cenário agrava-se quando as chuvas são mais concentradas e mais raras. O impacto sobre os solos é mais forte, aumentando a erosão e diminuindo a capacidade de resposta dos rios. «Aquilo que se espera é que se as tendências das alterações climáticas se mantiverem, e atendendo a que o clima de Portugal se caracteriza por ter grande variabilidade interanual da chuva (anos secos e anos chuvosos) e uma tendência generalizada para uma precipitação abaixo da média, o risco de haver cheias e inundações contínuas é muito maior», alertou a investigadora, acrescentando que «é urgente por isso definir um conjunto de estratégias, instrumentos e técnicas de boas práticas para que se encontrem medidas adequadas à gestão da água em relação ao uso e gestão do território»

As cheias extremas são o tipo de catástrofe natural mais comum na Europa. Os cenários apontam para que as alterações climáticas, incluindo a crescente intensidade das chuvadas fortes, venham a tornar ainda mais frequente a ocorrência de cheias fluviais extremas em certas regiões. É, por isso, urgente adoptar medidas que permitam prever as cheias e a mitigação dos seus efeitos.

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