Sexta-feira, 5 Dezembro 2025
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Seis por cento de famílias multiproblemáticas

No Dia Internacional da Família, que se assinala esta segunda-feira, Liliana Sousa, da Secção Autónoma de Ciências da Saúde da Universidade de Aveiro publica um artigo no ua_online.

«Todas as famílias são diferentes, todas têm competências e todas vivem problemas! Assim, distinguir famílias saudáveis e disfuncionais torna-se impreciso, pois competências e incompetências, fragilidades e capacidades, coexistem em todas as famílias.

Contudo, é inegável que algumas famílias vivem problemas mais complexos e dispõem de menos recursos (económicos, emocionais e/ou relacionais) para os enfrentar e resolver. Nesta circunstância destacam-se as famílias multiproblemáticas, cujas vidas se singularizam por múltiplos problemas severos, simultâneos e sucessivos, em vários membros e na relação familiar tais como a negligência, a delinquência, a depressão, o desemprego e a habitação precária. São famílias que se podem encontrar em todos os grupos sociais e económicos, mas a sua situação é mais preocupante se associada à pobreza, que claramente diminui os seus recursos.

As famílias multiproblemáticas estão entre os grupos com mais necessidade de apoio social, apesar de não se salientarem por uma elevada incidência (são cerca de 6% das famílias que procuram os serviços de acção social), contudo absorvem 50% dos serviços e do tempo dos técnicos, com resultados pouco animadores. Não obstante a enorme preocupação a diversos níveis (investigação, políticas sociais e prática profissional), com o apoio a estas famílias, raramente a intervenção é eficaz, frustrando todos os envolvidos – os profissionais e as famílias.

É, então, fundamental repensar a intervenção, destacando-se duas grandes linhas: centrar as competências destas famílias, sem esquecer os problemas; coordenar melhor a acção das várias instituições/profissionais.

As famílias multiproblemáticas vivem diversos problemas, mas têm também competências e recursos; por isso, conseguem (sobre)viver ao enorme stress e adversidades que enfrentam. Reconhecer as competências das famílias é uma forma de evitar a concentração nos problemas, que impede os envolvidos de perscrutar soluções. Além disso, permite ajudar as famílias a perceberem que com as suas capacidades podem enfrentar o(s) seu(s) problema(s). Nesta perspectiva, os profissionais não são os detentores das soluções dos problemas das famílias, mas deverão ser capazes de ajudá-las a mobilizar as suas competências.

A intervenção com estas famílias tende a assentar numa perspectiva compensatória: para cada problema, existe uma solução, que será desenvolvida por um especialista (o detentor da solução). Este processo repete-se para cada um dos problemas, dos vários elementos da família, resultando na acumulação de intervenções, muitas vezes pautadas pela fragmentação e descoordenação entre profissionais e/ou serviços. Neste contexto, os apoios formais podem desencadear alguns efeitos secundários indesejáveis no funcionamento familiar: enfraquecimento das estruturas familiares e sua incapacitação na resolução de problemas. De facto, o modelo subjacente às políticas sociais, aos projectos das instituições e à formação dos profissionais está mais direccionado para famílias que enfrentam uma crise pontual numa área e, muito menos, para famílias cronicamente em crise (famílias multi-problemáticas).

Os sistemas de apoio social são uma parte indispensável do suporte a estas famílias, mas a melhoria da sua eficácia depende da disseminação de modelos de apoio colaborativos que activem as competências das famílias, num contexto de coordenação entre a família, as redes formais e informais.»

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