Faleceu o cineasta aveirense Manuel Paula Dias, com 90 anos. Faria 91 no próximo dia de Natal, após uma vida entre a indústria de fundição — onde trabalhou desde muito cedo — e o cinema, que assumiu como paixão profunda e constante», escreve o Cine Clube de Avanca que, lamenta a sua morte e se refere à figura que «nos últimos anos, dedicava-se à escrita de um livro sobre a história da sua família e o início da indústria de fundição em Aveiro – um relato marcado pelo episódio dramático de um avião que, saído da Base Aérea de São Jacinto, se despenhou nos terrenos pertencentes ao seu pai».
Com a sua morte deixa «um legado maior no cinema documental português e uma memória artística profundamente entrelaçada com a história de Aveiro e da sua gente», escreve também o clube que em 2014, homenageou Manuel Paula Dias através do “AVANCA – Encontros Internacionais de Cinema, Televisão, Vídeo e Multimédia”, um festival que contou com a sua participação em várias edições como juri da competição internacional. Em 2018 foi igualmente júri do “Paisagens – Festival Internacional de Cinema de Sever do Vouga”, continuando a ser reconhecido pela sua experiência e contributo.
Manuel Paula Dias – CCA «Filmou sobretudo nas décadas de 1960 e 1970, recorrendo aos formatos reduzidos característicos do cinema amador da época. Através da sua câmara, documentou como poucos a vida da cidade, da região e da ria de Aveiro, criando um vasto e valioso arquivo audiovisual que preserva tradições, paisagens e modos de vida hoje desaparecidos.
A sua obra mais conhecida, o documentário “Sal, Duro Sal”, capta com intensidade e autenticidade a dureza do trabalho nas marinhas de sal aveirenses. Este filme, juntamente com outros da sua autoria, integrou a retrospetiva que o 3º Mar Film Festival lhe dedicou em 2019, no Museu Marítimo de Ílhavo. Já em 2013, tinha também sido exibido no ciclo “Fitas da Ria”, organizado pelo grupo “uariadeaveiro” da Universidade de Aveiro e apresentado no Teatro Aveirense.
Nesse mesmo ano, o RIOS – 2º Festival Internacional de Cinema Documental e Transmedia, realizado em Vila Real por Anabela Branco de Oliveira, acolheu uma retrospetiva dedicada ao cinema de Aveiro, exibindo “Sal, Duro Sal” e “Um Olhar Diferente pela Ria de Aveiro”, contribuindo para dar nova visibilidade à sua obra.
Em 2009, Manuel Paula Dias realizou um remake de “Decomposição”, um filme originalmente rodado em 1972. Esta ficção experimental, no seu início, relembra as dificuldades que o cinema amador e independente enfrentava com a ação da censura. Em colaboração com Ernesto Barros, realizou ainda “Derrame”, filme rodado em 1975 e concluído em 1977, que inclui imagens únicas do funeral do soldado morto no assalto à sede de Aveiro do Partido Comunista Português, num momento particularmente tenso do pós-Revolução.
Manuel Paula Dias e Ernesto Barros integraram o chamado “Grupo de Aveiro”, núcleo que marcou o cinema não-profissional português dos anos 60 e 70, ao lado de nomes como Vasco Branco e Manuel Matos Barbosa. Este grupo deixou um importante legado fílmico profundamente ligado à identidade cultural de Aveiro e da sua região».

