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Investigadores preparam sangue artificial

Uma equipa de investigação do Departamento de Química da Universidade de Aveiro em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro está a desenvolver um estudo para encontrar um composto sintético que possa substituir o sangue em cirurgias, urgências ou transplantes, baseado em hidrocarbonetos perfluorados.

“Estudos prévios já demonstraram que estes compostos sintéticos têm uma elevada capacidade de dissolução de oxigénio e de dióxido de carbono e um óptimo desempenho na oxigenação dos tecidos”, diz uma nota da equipa investigadora.

Sem estudos nesta área em Portugal, o Departamento de Química da Universidade de Aveiro decidiu “aventurar-se no risco do pioneirismo, tendo já obtido resultados promissores”.

Segundo a responsável da equipa de investigação, “estes compostos, baseados em PFCs, poderão funcionar como substitutos do sangue na função de transporte de oxigénio”. Os PFCs têm algumas características positivas: capacidade de solubilização de oxigénio e dióxido de carbono muito maior do que a hemoglobina, não são tóxicos, são biocompatíveis, não são absorvidos pelos tecidos e apresentam baixa tensão superficial.

A alternativa ao sangue natural “impõe-se” devido às doenças transmissíveis, como são os casos da hepatite e SIDA. Para a equipa, os perfluorocarbonetos (PFCs) constituem surgem como “uma nova luz ao fundo do túnel”.

Os PFCs podem substituir o sangue no transporte de oxigénio. Mas é preciso um sintático para cada aplicação uma vez que “cada tecido tem a sua necessidade específica de oxigénio”.

Nas emergências provocadas por traumas Segundo a investigação, “a aplicação mais directa para o sangue artificial são as emergências provocadas por traumas. A média de perda de sangue, nesses casos, ronda os 2,5 litros. A vítima necessita imediatamente de uma reposição do volume, assim como da sua capacidade de transporte de oxigénio, uma vez que esta perda diminui a oxigenação dos tecidos.

A maioria dos produtos desenvolvidos como substitutos de sangue não é ideal para emergências devido ao seu efeito hipertensivo. Embora tenha sido uma das primeiras e infrutíferas alternativas, ainda hoje a hemoglobina é alvo de pesquisa para a sua utilização como substituto.

No entanto, ela apresenta ainda problemas quanto à toxicidade e ao seu efeito hipertensivo, problema mais grave em casos traumáticos, uma vez que a pressão arterial acelera o sangramento e diminui, simultaneamente, a oxigenação dos tecidos. Os PFCs apresentam a vantagem de não serem absorvidos pelos tecidos e de mostrarem uma baixa tensão superficial”.

Este novo sangue carece de algumas funções, designadamente a capacidade de coagulação ou a imunidade asseguradas pelos glóbulos brancos.

Mas tem outras vantagens, por exemplo em situações de emergência, quando não existem tipos de sangue compatível, em casos de incompatibilidades de foro religioso que impeçam as transfusões de sangue ou na oxigenação de tecidos e de órgãos em operações e transplantes.

“Seriam apenas utilizados em situações pontuais até o próprio organismo começar a fabricar o sangue necessário para o funcionamento normal do corpo, até porque eles têm um tempo de retenção no organismo de apenas duas semanas. Ao fim deste tempo, são excretados sob a forma de vapor nos pulmões, ou pela urina”.

A equipa de investigação pretende dar o primeiro passo seguinte a intervenção dos médicos e fisiologistas, os “construtores do sangue artificial” a quem cabe, na posse de banco de dados com as informações dos compostos, afinar a sua mistura de substituto de sangue, adequando-a à aplicação que se pretende”.

A equipa de investigação pretende estudar a solubilidade do oxigénio, do dióxido do carbono, a densidade, a pressão de vapor, o índice de refracção, as emulsões, a estabilidade e o transporte de oxigénio nessas emulsões, “de maneira a que se possa perceber, através desse banco de dados, aquele que melhor lhe serve para determinado objectivo”.

Neste domínio, a equipa despertou o interesse da emprea Bausch-Lomb, da área de produtos de visão, que necessita da medição de alguns compostos que possam ser utilizados na cirurgia à retina. “Apesar de ser a área na qual a utilização destes compostos está mais banalizada, ainda subsiste um problema: quando se coloca o perfluoro no olho durante a operação, ele fica tão semelhante às lágrimas que se torna difícil removê-lo totalmente. É necessário efectuar uma ligeira modificação neste composto de modo a torná-lo mais visível e, assim, fácil de remover completamente, no fim da cirurgia”.

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