Os resíduos gerados pela indústria do pescado podem ter um elevado valor nutricional, ambiental e económico, conforme descobriram os investigadores do Centro de Estudos e do Mar e do Departamento de Química da Universidade de Aveiro UA) João Monteiro, Tiago Sousa, Marisa Pinho, Tânia Melo, Pedro Domingues, Ricardo Calado e Rosário Domingues. Os sete assinaram o estudo publicado pela revista Applied Food Research, mas já a pensar em estudos futuros, defendem que «deverão centrar-se na otimização dos métodos de extração e purificação destes lípidos, de modo a maximizar a sua recuperação e explorar todo o seu potencial funcional».
Também participaram no estudo o Departamento de Biologia, Centro de Espetrometria de Massa, o Laboratório Associado para a Química Verde (LAQV) da Rede de Química e Tecnologia (REQUIMTE) da UA, a Escola Universitária Vasco da Gama, da Universidade de Perúgia (Itália), o Instituto Português do Mar e da Atmosfera e da Universidade do Porto. Esses resíduos são «muitas vezes encarados apenas como desperdício»
«A descoberta é de uma equipa de investigação da UA», segundo comunicado. Os investigadores descobriram que a cabeça, cauda e restos resultantes do processo de corte e filetagem, normalmente descartados da pescada-do-Cabo (Merluccius capensise) «são ricos em lípidos bioativos com potencial aplicação nas áreas alimentar, farmacêutica e cosmética». Mas, os extratos lipídicos de ambos (cauda, cabeça, restos do corte e filetagem) «demonstraram atividade anti-inflamatória significativa em ensaios laboratoriais».
A «valorização destes resíduos» é apresentada como «uma oportunidade para tornar a indústria do pescado mais sustentável. Ao transformar subprodutos em matérias-primas de elevado valor acrescentado, é possível reduzir o desperdício, aumentar a eficiência dos processos produtivos e promover uma economia circular no setor das pescas», segundo o investigador João Monteiro.
Mas, além da pescado-do-cabo, há «espécies marinhas com perfis lipídicos semelhantes, nomeadamente outros peixes magros ou semi-gordos ricos em ómega-3, que produzem igualmente grandes volumes de subprodutos durante o processamento industrial”, segundo o investigador, João Monteiro.
INFO UA «Os restos do peixe resultantes do corte e do processo de filetagem revelaram conter maiores quantidades de cinzas, proteínas e lípidos totais, bem como níveis mais elevados de certos ácidos gordos, como o ácido palmítico e o ácido oleico. Já as aparas destacaram-se por uma maior abundância de fosfolípidos, em particular fosfatidilcolinas – moléculas essenciais para a estrutura das células e com múltiplas aplicações industriais.
Apesar destas diferenças, aponta o investigador João Monteiro, “ambos
os subprodutos apresentaram quantidades semelhantes de fosfolípidos
marinhos e de fosfolípidos ricos em ómega-3, incluindo EPA e DHA,
conhecidos pelos seus benefícios para a saúde cardiovascular e
cerebral”. O cientista refere ainda que “os extratos lipídicos de ambos
demonstraram atividade anti-inflamatória significativa em ensaios
laboratoriais. Este estudo insere-se num esforço mais amplo de valorização dos
recursos marinhos, desenvolvido no âmbito do projeto Pacto da
Bioeconomia Azul com financiamento por fundos do PRR (programa Next
Generation EU), que visa promover a inovação e a sustentabilidade na
indústria do peixe. Em particular, a integração deste trabalho na
plataforma transversal de valorização de subprodutos do projeto reflete a
ambição de criar soluções cientificamente robustas que possam ser
efetivamente transferidas para o setor produtivo, contribuindo para uma
utilização mais eficiente dos recursos, redução do desperdício e aumento
do valor económico gerado ao longo da cadeia».

