Um estudo desenvolvido por António Pedro Costa, investigador do Centro de Investigação Didática e Tecnologia na Formação de Formadores da Universidade de Aveiro (UA) revela que a integração da inteligência artificial (IA) na investigação qualitativa está a redefinir profundamente a forma como o conhecimento é produzido, começando «agora a ser encarada como uma verdadeira co-investigadora — um agente ativo na análise, interpretação e reflexão sobre os dados», segundo comunicado da UA. O resultado do estudo evidencia uma mudança de paradigma: a IA deixa de ser um instrumento passivo para assumir o estatuto de participante ativo na produção de conhecimento. Esta transformação é sustentada, entre outras perspetivas teóricas, pela Actor-Network Theory, que reconhece tanto humanos como tecnologias como agentes que influenciam os processos de investigação.
A colaboração entre humanos e IA «pode enriquecer significativamente a análise qualitativa, desde que o investigador humano mantenha um papel central, reflexivo e responsável por todo o processo», segundo o estudo.
O investigador propõe um modelo inovador – AbductivAI – que «assenta na colaboração entre investigadores humanos e sistemas de IA na análise de dados qualitativos. Baseado numa abordagem abdutiva — centrada na construção de explicações a partir de padrões emergentes —, o modelo explora o papel da IA como parceira analítica, colaboradora reflexiva e elemento integrante de um sistema de cognição distribuída».
Está aberta a possibilidade do desenvolvimento de «sistemas especializados até à criação de protocolos de validação para conhecimento co-produzido. Poderá também contribuir para democratizar o acesso à investigação, ampliando as possibilidades de produção de conhecimento. Mais do que uma evolução tecnológica, esta mudança representa uma redefinição profunda da própria investigação qualitativa, baseada numa colaboração entre diferentes formas de inteligência — humana e artificial — que promete transformar a forma como compreendemos e construímos conhecimento».
O investigador desenvolveu e testou este modelo em parceria com as universidades Tecnológica de Chipre, Jaguelónica (Polónia) e Vytautas Magnus (Lituânia), recorrendo a técnicas avançadas de interação com IA, como o Chain-of-Prompting, utilizando como base 323 resumos submetidos à World Conference on Qualitative Research.
INFO UA IA como parceira interpretativa
«No centro desta evolução está o conceito de “inteligência complementar”, uma abordagem colaborativa que combina a capacidade da IA para processar grandes volumes de dados, identificar padrões e gerar temas, com a competência humana para interpretar contextos, tomar decisões éticas e produzir análises aprofundadas. Desta interação emergem insights que dificilmente seriam alcançados por cada um de forma isolada.
Este novo enquadramento está também a impulsionar o surgimento de metodologias híbridas, que integram explicitamente a IA como parceira interpretativa. Abordagens como o Reconstructive Social Research Prompting ilustram esta tendência, apontando para o desenvolvimento de paradigmas inteiramente novos na investigação qualitativa.
Contudo, esta transformação levanta desafios significativos. A redistribuição de poder dentro das equipas de investigação exige novos modelos de responsabilidade e compreensão da produção colaborativa de conhecimento. Embora os investigadores humanos mantenham a autoridade final na interpretação e na tomada de decisões éticas, a IA influencia cada vez mais a direção das análises ao sugerir padrões e interpretações.
As implicações éticas são igualmente centrais. Questões como a transparência, a representação dos dados e a responsabilidade sobre os resultados tornam-se mais complexas, exigindo o desenvolvimento de quadros éticos específicos para a colaboração entre humanos e IA.
Do ponto de vista prático, a implementação deste modelo requer desenhos de investigação mais sofisticados, com fluxos de trabalho iterativos, mecanismos de validação e estratégias claras de colaboração. O sucesso depende ainda de uma preparação mútua: investigadores com formação sólida sobre as capacidades e limitações da IA e sistemas ajustados às especificidades da investigação qualitativa».

