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COSTA RECUOU 15 METROS EM 3 DIAS

“Há dois anos, por exemplo, registou-se em algumas zonas, durante um único temporal com duração de 72 horas, recuos da linha de costa de 15 metros”, segundo Cristina Bernardes, especialista da Universidade de Aveiro na área da erosão que tem investigado a costa entre o Furadouro e Mira.

Este é um fenómeno que “colocam em risco as populações que todas as manhãs dão os bons dias às águas azuis do mar”, segundo a investigadora que dá conhecer os riscos naturais que afectam a costa portuguesa e, mais concretamente, a costa entre Aveiro e Mira, e aponta algumas soluções para minimizar as suas consequências”.

Segundo a investigação, “a tendência da erosão na nossa costa é para um aumento crescente. Um dos estudos por nós realizado recorreu à análise temporal de fotografias aéreas numa estação fotogramétrica, desde 1958 até 2002. Neste período, entre o Furadouro e a Praia de Mira, registámos nalguns pontos recuos de 230 metros correspondente a uma perda efectiva do sistema praia-duna e um recuo médio da linha de costa de 6 m/ano. Há dois anos, por exemplo, registou-se em algumas zonas, durante um único temporal com duração de 72 horas, recuos da linha de costa de 15 metros”.

Cristina Bernardes é investigadora do grupo da Geologia Costeira do Centro de Estudos de Ambiente e Mar do Departamento de Geociências da UA, unidade de investigação que estudo o fenómeno da erosão desde Janeiro de 1996.

“Quase 10 anos de investigações que permitem apresentar já conclusões importantes da evolução da zona costeira entre a Praia do Furadouro e a Praia de Mira, com especial ênfase na zona a sul da Barra/Costa Nova, onde o fenómeno erosão ameaça futuro da costa da erosão tem sido bastante sério com tendência para piorar, e apontar medidas para travar este fenómeno”.

“Na zona de Aveiro, poderia ser feita a transposição dos sedimentos acumulados no molhe norte para a zona a sul, através de um processo de “by-passing”, ou fazer a re-alimentação artificial com sedimentos de granolumetria adequada, provenientes do desassoreamento dos canais da laguna, e não a partir da areia depositada na zona submersa das próprias praias, como se tem vindo a fazer. Também a manutenção dos diques arenosos que substituíram, em mais de 80%, o sistema de dunas frontais entretanto erodido, não está a ser feita da forma mais adequada”.

A principal conclusão da investigação indica que “cada vez há menos sedimento disponível (do Rio Douro, principalmente) para ser transportado pelas correntes da deriva litoral, factor decisivo para o aumento da erosão na Costa de Aveiro. A tendência na zona de Aveiro é para uma erosão muito séria e continuação do recuo da linha da costa. o sector acabam por ser armadilhas para o pouco sedimento disponível”.

Soluções pressupõem vontade política”
“No entanto, esta tendência pode reverter-se, havendo vontade política e condições económicas”, segundo conclui a investigação.

“Algumas das soluções apontadas passam pela transferência artificial dos sedimentos do molhe norte para o sul ou pela destruição dos esporões substituindo-os pela re-alimentação artificial das praias”.

Esporões existem por várias partes do mundo mas, nos EUA, por exemplo, “há estados onde é totalmente proibido construir esporões, os que já tinham sido construídos foram retirados, substituindo estas intervenções invasivas pela re-alimentação artificial e periódica das praias, e realmente verificou-se uma recuperação nítida das mesmas”.

São medidas com têm os seus encargos mas se avaliarmos os custos da construção de um esporão e a sua manutenção, acaba por ficar mais barato e “foi com esta opção que se recuperaram as praias da Costa Nova e da Barra na década de 70/80”.

Os esporões transferem o problema para sul, uma vez que normalmente e a “projecção mar a dentro é cada vez maior”. São referidos os esporões recentemente construídos na Praia do Areão, na Vagueira, e na Praia do Poço da Cruz, em Mira, por exemplo, com cerca de 230 metros e uma inclinação de 30º para sul para facilitar a passagem dos sedimentos transportados pelas correntes litorais.

Próximo desafio

Rimar – Riscos Naturais Associados a Variações do Nível do Mar e CROP – Processos Transversais em Ambientes Contrastantes foram os projectos de investigação mais recentes desenvolvidos pelo grupo da Geologia Costeira do Centro de Estudos de Ambiente e Mar do Departamento de Geociências da UA, em parceria com as Universidades do Algarve, Porto, Évora, Lisboa e Coimbra, e os Institutos Hidrográfico, de Meteorologia e das Ciências da Terra e do Espaço.

Os “quatros principais fenómenos indutores de riscos naturais” são a elevação secular do nível médio do mar, os temporais, a elevação de índole meteorológica e os tsunamis. Foi feita uma comparação entre duas zonas do litoral português energeticamente distintas, situadas em Aveiro e no Algarve.

“O objectivo geral era comparar os processos causa-efeito em resposta aos factores naturais, mesmo sendo relativamente diferentes em termos de condições hidrodinâmicas. É mais fácil estudar no Algarve do que em Aveiro “devido às condições altamente energéticas que caracterizam a costa ocidental portuguesa”.

No projecto CROP os estudos incidiram não só sobre a praia emersa, mas estenderam-se também à plataforma adjacente, até uma profundidade de 30-40m, para melhor perceber como é que as morfologias aí presentes, barras arenosas, se comportam e transferem o sedimento para a praia.

A elaboração de mapas de vulnerabilidade e de risco é o próximo desafio da equipa de investigação do Departamento de Geociências. Através de um projecto submetido para aprovação à Fundação para a Ciência e Tecnologia, propõe-se quantificar os factores de risco desta zona tão vulnerável à erosão.

“Baseando-nos num conjunto de geo-indicadores que incluem aspectos ligados ao uso do solo, características topográficas, variação da posição da linha de costa ao longo do tempo, taxas médias de erosão, susceptibilidade ao galgamento, entre outros, pretendemos definir perfis e níveis de risco a partir de matrizes de vulnerabilidade que mais tarde serão incorporadas num sistema de informação geográfica”.

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